terça-feira, 9 de junho de 2015

Beijo gay não é o problema...


Imagem: Marcelle Carvalho (Globo)
Vez por outra aparecem personagens gays brilhando como personagens de novelas, cenas de beijos gays como momentos que criam, segundo a mídia, grandes expectativas, sejam elas positivas ou negativas no público. O discurso antes e depois destas cenas de beijos e personagens gays é sempre o mesmo: 'A sociedade conservadora não vai gostar', 'Será que a sociedade evoluiu o suficiente para aceitar um beijo gay?', 'O preconceito ainda é muito forte entre os brasileiros' etc. O interesse é apenas um: rotular pessoas que se incomodam com a cena e com a ênfase exarcerbada de personagens gays, quase sempre colocados como personagens bonzinhos ou engraçados (mas não de forma pejorativa).


Uma exceção que às vezes se comenta é a do vilão Felix, da novela Amor à Vida, que no final se torna um herói. Esta aparente exceção cria um efeito diferente do que pode parecer à primeira vista. Se é razoável acreditar que mostrar gays sempre como carismáticos ou heróicos cria um esteriótipo de que todo gay tem estas características, parece que um gay que é representado como vilão enfraquece esse esteriótipo. Porém, não é exatamente isto que acontece no caso Felix. O vilão, com todos os seus defeitos e maldades, ainda é apresentado de forma carismática e termina como herói. A mensagem que este personagem transmite é que a maldade que um gay pode cometer pode ser tolerável e mesmo o gay que parece mal é um herói em desenvolvimento. Uma imagem bastante tolerante com os malfeitos que um gay, como qualquer pessoa, pode cometer.

O vídeo a seguir mostra um debate criado pelo programa na moral, um programa explicitamente interessado em controlar a moral dos brasileiros, que tem todos estes elementos que comentei:




Apesar de todo esse esforço de caracterizar o público conservador como preconceituoso e de criar um preconceito positivo em relação aos gays, o problema não é o preconceito de conservadores. Aliás, é interessante notar que não só a esquerda, como também uma parte do público mais ou menos alheio à política abraça a crença que a mídia tenta vender de que se incomodar com a forma como o gay é apresentado é preconceito. No fundo, quando conservadores passam a agir de forma preconceituosa, como se o preconceito fizesse parte das características essenciais de um conservador, ele abraça esta crença de que para ser conservador você deve ter certas crenças. O embate artificial criado pela mídia de conservadores e religiosos de um lado e esquerdistas e LGBT's de outro só tem força enquanto os dois lados do embate tem esta crença. Nem preciso dizer que quando o conservador adota a crença de que faz parte da sua identidade ser preconceituoso ele entra em um embate em desvantagem, e é quase questão de tempo para perdê-lo, já que de certa forma já perdeu internamente, ao adotar a crença.

Então, o conservador precisa fazer ao máximo uma autoanálise para perceber como tem se comportado e que crenças tem adotado, de onde vem verdadeiramente seu incômodo. Muitas das vezes, o incômodo do conservador em relação ao beijo gay e a forma como gays são retratados não é por causa de um preconceito, apesar de muitas vezes o próprio conservador não tem clareza disto. Seu incomodo deriva de algumas características próprias do conservadorismo. Uma delas é a própria descrença do conservador na perfeição humana. Não existe ser humano perfeito, talvez o único que tenha existido, para os religiosos tenha sido Jesus Cristo, mas mesmo este não era apenas humano. Se não existe ser humano perfeito é uma perversidade fazer um povo acreditar que pessoas com determinadas características são perfeitas. Criar um delírio coletivo de que gays, negros, pobres e esquerdistas são perfeitos e não cometem erros têm sido todo o esforço de quase toda a mídia, do governo e dos esquerdistas ao longo de décadas no Brasil e quem fala contra esta visão é prontamente taxado de conservador preconceituoso.

Por outro lado, esquerdistas tem uma tendência geral de colocar seu lado como intrínseca e indiscutivelmente bom. Esta atitude tem origem no marxismo. Marx fundamentou a visão de mundo que é o materialismo dialético. A dialética marxista é baseada na dialética de Hegel trocando o idealismo do último pelo materialismo marxista. Na dialética hegeliana, a história da sociedade(e talvez do mundo) é entendida a partir do conflito(marxistas costumam chamar de contradição) de opostos, porém, ao contrário do marxismo, esta oposição para Hegel não era bem entre grupos ou entidades concretas, mas entre elementos abstratos, ideais. Você tem as idéias de liberdade X coerção, capitalismo x socialismo etc disputando espaço na sociedade. Para Marx, a disputa não é entre elementos abstratos, mas entre grupos, classes sociais. Se Hegel teria criado o suporte intelectual para o autoritarismo napoleônico, como por vezes é afirmado, parece que Marx deu o suporte intelectual para o autoritarismo da União Soviética e países comunistas. Esta é a base de toda ou de praticamente toda a esquerda atual.

Esta transformação da dialética idealista para a dialética marxista, trouxe algumas consequências. Uma dela é o erro de tratar coisas materiais, como os coletivos e classes sociais, como se fossem ideais. A perfeição só existe como ideal, como algo que pode ser imaginado abstratamente, mas muitas vezes marxistas e esquerdistas no geral tratam adversários como absolutamente maus e eles próprios como absolutamente bons, cometendo erros, na pior das hipóteses, de pensamento e nunca tendo nenhum traço de maldade ou más intenções. Este é um traço que não existe nos conservadores, que entende que é impossível e loucura achar que existe alguém puramente bom ou mau, todos nós somos herdeiros do pecado original e nunca podemos nos achar deuses. Aliás, é este tipo de mentalidade esquerdista que deu origem aos ideais de pureza racial nazista e o ódio a classe média, como já discuti em outro post.

Outra razão para que não só conservadores como qualquer pessoa razoável se indignar com a forma como os gays são retratados pela mídia são as crenças implícitas que a mídia trabalha para nos fazer acreditar. Estas crenças são basicamente aspectos ou pressupostos das justificativas usadas para defender uma imagem positiva dos gays ou das causas da militância LGBT. Você pode até concordar com algumas dessas causas ou mesmo que existe uma imagem negativa demais em relação aos gays, mas por diferentes argumentos. Porém, grupos que queiram fazer avançar outras agendas além da agenda LGBT, acabam inserindo argumentos bizarros para idéias que podem ser até razoáveis.

Por exemplo, alguém poderia defender o casamento civil gay, já que o casamento civil é praticamente apenas um contrato, sem nenhum valor religioso. O cristianismo, por exemplo, não acredita que você está casado diante de Deus (ou que você tentou fazer este casamento diante de Deus), se as pessoas assinam o contrato de casamento civil. Porém, se você defende que o casamento civil deveria valer para homossexuais baseado em slogans como 'deixe as pessoas amarem quem elas quiserem' , basicamente você está defendendo que toda relação homossexual tem amor, quando nem toda relação sexual ou entre parceiros tem essa nobreza toda.

Então, Beijo gay não é o problema. Aliás, quase sempre que a militância esquerdista finge existir um problema este é o problema, e direitistas quase sempre caem nesse tipo de truque. O que conservadores e liberais precisam aprender a fazer sempre que a esquerda vir dando chilique sobre algum suposto grande problema, é respirar fundo e analisar quais são os verdadeiros problemas. O que de fato está causando o incômodo com o chilique esquerdista? E a partir disto começar investigar as causas deste problema redefinido por uma análise inicial.

Por Pedro Henrique
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