segunda-feira, 4 de maio de 2015

A doença dos revolucionários


Imagem: Capa de "Crime e Castigo", de Dostoiévski
Relendo alguns trechos do grande livro de Dostoiévski, Crime e Castigo, não pude deixar de notar algo que nos atinge nos dias de hoje nesse hospício chamado Brasil. Só para contextualizar o leitor, segue um pequeno resumo da obra. Raskólnikov, um pobre estudante russo tremendamente inteligente e ambicioso, queria ser um Napoleão Bonaparte. Mas para chegar lá, Raskólnikov imaginava que sujeitos especiais como o Imperador francês podiam transgredir, sem qualquer remorso, todas as leis para poder impor a sua superioridade ao mundo. Como ele não tinha tanta certeza de que era um Napoleão, Raskólnikov tinha que fazer um teste, que foi o seguinte: matar uma velhinha agiota para roubar seu dinheiro. Neste crime, ele não só ficaria com o dinheiro da velhinha para seguir sua jornada pretensamente vitoriosa, mas teria também a oportunidade para testar sua disposição diante de uma grave violação de uma lei vigente. A ideia, portanto, era: matar a velhinha e não sentir nenhum remorso por isso, já que aquilo era apenas uma etapa da sua caminhada rumo ao estrelato.

Mas o plano foi um fracasso, pois Raskólnikov não só não usou o dinheiro roubado, como ainda teve um grande remorso que o fez confessar o crime, pelo qual foi condenado a 8 anos de trabalhos forçados na Sibéria, onde finalmente se arrepende e se entristece, mas não por verdadeira penitência, e sim por não ser o grande homem acima do bem e do mal que julgava ser. No fim ele resume o plano e sua situação dizendo o seguinte:

“Eu mesmo queria o bem de todas as pessoas e faria centenas, milhares de coisas boas em vez dessa tolice [assassinato da velhinha], que nem tolice é, mas simplesmente uma falta de jeito, uma vez que toda essa ideia não tinha nada de tão tola como parece agora, depois do fracasso. Com essa tolice eu queria apenas me colocar numa condição independente, dar o primeiro passo, conseguir recursos, e depois tudo seria reparado pela utilidade relativamente incomensurável do ato.”

Pois bem. Se pudermos resumir ainda mais a ideia de Raskólnikov, seria o seguinte: para executar os grandes planos, os fins justificam os meios. Claro que uma cabeça assim é doentia e deve receber tratamento e não uma coroa, como pretendia Raskólnikov. Mas engana-se quem pensa que este tipo de ser humano está apenas na literatura, longe das altas esferas do poder, recluso numa clínica psiquiátrica para tratar de sua doença mental. Não! Vejam que arrombar os cofres públicos, falir uma companhia petrolífera, comprar um poder e aparelhar outro, infiltrar-se na Igreja Católica, demolir a cultura e a fé do povo, mentir descaradamente, convocar uma guerra civil contra seu próprio país, entregar boa parte da riqueza nacional para aliados internacionais, e ainda fazer tudo isso SEM NENHUM REMORSO OU ARREPENDIMENTO, e ainda exaltando os que são pegos fazendo isto, é um traço desta mentalidade doentia descrita pela pena de mestre de Doistoiévski.

Quer dizer o seguinte: a transgressão de todas regras jurídicas e morais é só um meio, um passo que deve ser dado para a conquista do fim: a coroa de Napoleão na forma de um reino socialista que nunca existiu e nem vai existir na prática, mas que vai demandar a promoção de miséria, mais crimes e mais acúmulo de poder na mão de indivíduos da pior espécie.

Como nem todo mundo tem a habilidade para reconhecer de cara um psicopata, a leitura dos grandes clássicos, e não porcarias de autoajuda e “espiritualidade” escrita por trastes como Leonardo Boff, é FUNDAMENTAL, pois é neles que a alma humana é esmiuçada por aqueles que conseguem enxergá-la melhor do que nós, pobres mortais submetidos ao bombardeio publicitário promovido por facínoras.

Por Arthur Dutra, editor-chefe da revista O Coyote
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