sábado, 14 de março de 2015

Receita de como vencer um debate sem argumentos


Imagem: Reprodução Redes Sociais
Por Luan Sperandio

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer deu uma dica singela para ainda que na ausência de argumentos seja possível vencer um debate, qual seja, desqualificar o oponente.

Quando um mensageiro trouxer uma crítica irrefutável, esqueça o conteúdo da mensagem e se concentre apenas em atacar o mensageiro. O desqualifique, para que seus argumentos não tenham credibilidade perante o júri.

Vale ressaltar que há dois outros ingredientes para potencializar a receita dada pelo alemão: a primeira é nunca assumir seus próprios erros, bastando criar uma figura externa e culpá-la reiteradamente por tudo que der errado. Logo, você se eximirá de erros perante a opinião pública. 

Ademais, é importante ter uma máquina de propaganda organizada, sobretudo por militantes coordenados para endossarem seus posicionamentos, por mais fictícios que sejam. Isso dará um aspecto verossímil a eles.

Na corrida presidencial de 2014 esta estratagema foi regra: na falta de argumentos para sustentar-se e defender a situação, ante o iminente fracasso governista, a estratégia foi sempre fugir deste mérito. O objeto da discussão era deixado de lado para atacar os adversários e os desqualificar. O que era importante para a nação, seus principais problemas, como a inflação galopante, a desvalorização do real, a burocracia estatal, o país em recessão econômica, o aumento da pobreza, os baixos índices de educação, apenas para citar alguns exemplos, foram temáticas preteridas para agredirem os adversários – e não suas soluções para esses problemas.

Em que se pese essa estratégia, como expectador sempre a vi sendo praticada contra “os outros”, até ser surpreendido esta semana como um dos alvos dela.

Um site relacionado ao governo fez uma “matéria” para tentar desqualificar o movimento que está organizando as manifestações do próximo dia 15 de março cujo objetivo é demonstrar a insatisfação popular pelo que aí está no panorama político federal.

Aduziu a “reportagem” que o movimento é financiado por “petrolíferas americanas”, sem, obviamente, demonstrar qualquer embasamento. Ademais, citou-me como integrante, quando na verdade não possuo nenhuma vinculação com aquele, tendo sequer me posicionado publicamente sobre os mencionados protestos.

A “reportagem” foi replicada para dezenas de outros veículos de mídia, por sua vez também patrocinados por estatais e com viés ideológico de sempre advogar para o governo. Foram milhares de compartilhamentos nas redes sociais, e inúmeras ofensas recebidas por militantes. Tentaram inclusive invadir meu e-mail pessoal – um caso de polícia.

Em nenhum momento o conteúdo de meus artigos foi levado em conta. Nada foi refutado. Não usaram a liberdade de expressão, opinião e de imprensa para criticarem minhas idéias, apenas ódio de fanáticos políticos que assumiram como verdade uma dúzia de parágrafos sem nenhuma haste de veracidade. 

Penso que um portal de notícias não precisa ser necessariamente imparcial, entretanto, certamente precisa ser livre. Sites financiados com dinheiro público não parecem ser um bom exemplo.

Isso ocorre quando se confunde estado, governo e partido, prática recorrente nos últimos anos. Nesta semana, para exemplificar, houve decretação de ponto facultativo nos órgãos de determinado estado para que funcionários públicos engrossassem um movimento de apoio a presidência junto com a militância do partido: um enorme desperdício de dinheiro público utilizado para interesses partidários.

Por fim, essa postura enfraquece nossas instituições republicanas, aumenta o repúdio que o cidadão médio possui em relação à política e, por conseguinte, quem perde é a democracia como um todo.

Luan Sperandio, 22, é acadêmico de Direito da Universidade Federal do Espírito Santo e membro dos Estudantes Pela Liberdade/ES.
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