segunda-feira, 2 de março de 2015

O que temos que aprender para vencer a batalha política


Imagem: Filme Black Hawk Down
Por Arthur Dutra

O brasileiro em geral enxerga o embate político de uma forma bastante pueril, limitada àquela história de fazer promessas inexequíveis para ganhar o voto ou simplesmente comprá-lo das mais várias formas possíveis. Esta, claro, é uma concepção bastante superficial da política, a qual merece uma refutação nestes dias em que todo mundo sente-se no dever de mexer no caldeirão fervente em que está metido o Brasil. 

No atual estado de ânimos em que se debate a nação, compra de votos e promessas mirabolantes não servirão de nada para desalojar o petismo do poder. Longe disto! Ou o leitor imagina que convencerá um petista a deixar de militar por seu partido mediante o pagamento de uma mixaria qualquer ou de uma promessa de pavimentação de sua rua? Claro que não. Há muitos fatores envolvidos na criação de uma militância, no desenvolvimento de um discurso minimamente capaz de influenciar as pessoas, na construção de um aparato logístico para dar suporte a uma oposição popular, enfim, é preciso cair na real: política não é coisa para amadores ou pitaqueiros de mesa de bar. Agora que a situação está calamitosa, e urgente ao ponto de não se poder mais esperar a realização de eleições daqui a quatro anos para resolver o problema, é que se verifica a movimentação de grupos e pessoas dispostas a se organizarem de verdade para travar a guerra política. Esta é a boa notícia. A má notícia é que isto não é nem um pouco fácil.

Primeiro porque sequer há uma uniformidade de discurso no seio da oposição. E nem poderia, visto que nem mesmo os partidos que se dizem de oposição têm algo a oferecer neste sentido. O PSDB continua sendo PSDB, ou seja, nem diz que sim nem diz que não, indo de um lado para o outro cacarejando e arrastando sem imenso rabo de palha. A única aparição digna de nota do PSDB nesses últimos dias foi um meme com a foto de FHC com uma nota de R$2,00. Foi engraçadinho ver o FHC engazopando a presidente, mas é tão pouco que dá só para rir mesmo. De lá, portanto, não sairá nada de útil a qualquer movimento popular que se pretenda forte. 

A conclusão inevitável é esta: a oposição partidária deve ser conduzida, e não condutora. Mas como conduzi-la? Eis outra dificuldade, mas esta facilmente superável com um mínimo de organização, consistente na fixação de objetivos claros e determinados em cada passo, para que não se caia na mesma patacoada que vimos nos protestos de junho de 2013. O movimento do dia 15 de março tem vocação para ser um divisor de águas, mas desde que a população compareça em peso e peça, em uníssono, uma só e mesma coisa: impeachment. Bradar contra uma generalidade como a corrupção é uma platitude e uma inutilidade, visto que ninguém em sã consciência se posicionará a favor disto, mesmo que a pratique. Levados pelo ensurdecedor clamor pela deflagração do processo de impeachment da Presidente da República, os demais políticos não-petistas não poderão, em sã consciência, se omitir, sob pena de serem eles também colocados no alvo da insatisfação popular. Dizem que foi Ulisses Guimarães o autor da frase, e eu não tenho certeza disso, mas o fato é que ela veicula uma verdade: político tem medo de gente na rua.

Outra dificuldade neste momento de aprendizado cívico é a postura do cidadão diante do aparato estatal. Digo isto porque convocar e organizar uma manifestação não se restringe apenas a dizer que em tal dia e em tal lugar haverá um protesto contra isto ou aquilo. Neste ponto, porém, entra um elemento que faz a balança pesar para o lado do petismo e suas linhas auxiliares. É que essa turma não perde NENHUM tempo ou esforço se ocupando em cumprir os trâmites burocráticos - sim eles existem até para isto! - necessários para se fazer uma simples manifestação de rua. Ofícios, solicitações formais de intervenção no trânsito, autorização para uso de carros de som, pedidos de envio de aparato policial, tudo protocolado, carimbado e despachado pelas repartições públicas competentes. Tempo, muito tempo perdido. Isto sem contar na possibilidade de um ofício desses cair nas mãos de um funcionário público que seja antipático à sua causa, situação em que seu pedido poderá ficar dormindo em berço esplêndido, atravancado o andamento ou ser simplesmente indeferido por não preencher os requisitos formais legais. Imagine, leitor, se o MST, o MTST, o Movimento Passe Livre vão pedir autorização para alguém antes de fechar uma via pública ou invadir uma propriedade? É claro que não. E ainda assim saem todos isentos de responsabilidades jurídicas pelos danos causados. Esta é uma vantagem nem um pouco desprezível, pois dá a seus organizadores e participantes tempo precioso, além do anonimato, por trás do qual se escondem para fazer e dizer o que bem entendam. 

Digo que isto pesa a favor da esquerda pois os novos movimentos oposicionistas, na preocupação - legítima - de fazer tudo dentro dos conformes, respeitando a ordem jurídica e os direitos alheios, gastam esforços em ninharias que consomem tempo precioso, além de sujeitar seus realizadores às consequências jurídicas por qualquer imprevisto causado pelos próprios adversários, o que, convenhamos, pode afastar pessoas que se disponham a encabeçar algo assim.

Enfim, são dificuldades perfeitamente superáveis que fazem parte de um processo tardio de aprendizado, o qual negligenciamos em nome da comodidade e por não termos vislumbrado o abismo tão de perto como hoje. A omissão de outrora só será perdoada se agora, devidamente cientes do quadro catastrófico que está na nossa frente, fizermos o nosso papel. E façamos do nosso jeito, sem esperar por impulsos partidários, acertando e errando, mas tentando fazer o melhor e apoiando quem está doando muito do seu tempo e dinheiro nessa empreitada. 

É preciso, portanto, compensar o equilíbrio da balança de alguma forma. Procurem os organizadores dos manifestos de suas cidades e empenhem seu apoio, tanto moral quanto material (leia-se DINHEIRO), pois só assim pode-se brigar de igual para igual contra profissionais escolados na arte de fazer sua posição prevalecer, nem que seja no grito.
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