domingo, 22 de março de 2015

O país do autoengano


Imagem: Reprodução Redes Sociais
Por Arthur Dutra (*)

Creio que não há no Brasil um observador atento que não tenha chegado à seguinte conclusão: o PSDB não é nem nunca foi oposição ao PT. Ponto final. Esta dura realidade nem é tão antiga assim, mas agora se tornou de tal forma clara, que muitos brasileiros decepcionados sentem vontade de pedir de volta os votos depositados nos candidatos desse partido.

Aliás, esta parece ser a sina dos brasileiros: serem “traídos” por políticos e partidos. Muitos que repudiam o PT também alegam que foram traídos, pois o partido que era o paladino da moralidade teria se tornado, num passe de mágica, uma máquina de roubar dinheiro público, corrompido em sua origem imaculada; o PSDB, que governou o país sob ferrenha oposição petista, parecia ser o partido que faria de tudo para derrubar o petismo e voltar ao Palácio do Planalto. Mas não só não o fez, como impediu que outros fizessem e, agora, impede que o povo faça o serviço que era para ele, PSDB, fazer; até o velho PMDB recebeu votos irrestritos de confiança na figura do deputado Eduardo Cunha, que ao primeiro sinal de que nada faria para derrubar um governo podre, foi alvo de lamúrias de corações decepcionados.

Diante de tantas decepções emocionadas, surge um questionamento: foram eles que nos iludiram ou nós é que nos autoiludimos graças a nossa pouca atenção à essência das coisas? Aposto tudo na segunda hipótese.

Isto porque o PT, desde os seus primórdios, sempre foi o partido do vale-tudo em nome do “sonho socialista”, do paraíso utópico onde a opressão burguesa seria suprimida para instaurar um reino de igualdade e justiça social. Daí porque roubar, achacar, chantagear e cometer toda sorte de crimes nunca foi problema para o partido, que até brandiu a bandeira da ética pois lhe parecia conveniente para falar ao moralismo pequeno-burguês brasileiro. E falou. E ganhou. E nos governa. Mas na origem, no desenvolvimento e ainda hoje está presente o mesmo germe revolucionário, que ficou apenas oculto aos olhos deste mesmo povo que hoje se estarrece ao testemunhar o conjunto da obra petista.

O PSDB, fundado nas salas de aula da USP, quis ter em seus quadros a figura de um certo metalúrgico e líder sindical do ABC paulista, conhecido como Luís Inácio Lula da Silva. Porém, como a proposta de um partido social-democrata, o eufemismo para uma esquerda chique, não atraia o oportunista Lula, ele preferiu aceitar o convite para ser a figura magna de um partido de esquerda popular, o PT. Isto não impediu que esses partidos se digladiassem pelo poder, mas só até o ponto em que os dois permanecessem com a hegemonia do governo do país. O plano foi um sucesso, como se vê, pois já dura 21 anos. Mas para isso foi fundamental o apoio maciço de um certo PMDB, que encarna como ninguém a ganância e por isso não deveria enganar mais ninguém. Não deveria, mas...

...mas ainda há quem se deixe encantar com o discurso do peemebedebista Eduardo Cunha, o Frank Underwood brazuca, um sanguessuga Estado, um vácuo de ideais que nada mais deseja do que degustar uma parcela do poder nacional e seus consectários financeiros. Para isso, pouco importa se é PT ou PSDB a mandar no país. O que interessa é estar lá, agarrado em uma penca de ministérios e amigado com o rei, mas sem pagar os altos custos políticos e sociais que a condução de um governo cobra de seus artífices.

Ao fim, percebe-se que essas coisas nem são tão secretas assim. Ao contrário. Seriam facilmente observadas se o eleitor brasileiro, sempre preguiçoso, sempre soberbo, cuidasse um pouco mais de sua educação política, que não se manifesta apenas nas eleições. Negligenciar esta tarefa é certeza de que um dia seremos chamados a pagar um alto custo, inclusive emocional, pois toda decepção, além de dolorosa, ganha outros contornos, estes mais dramáticos, quando pega o traído não só pelo ardil do enganador, mas pela negligência do próprio enganado, que depois não pode reclamar muito por ter sido passado para trás por um farsante público e notório.

(*) Editor-chefe da revista O Coyote
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