terça-feira, 10 de março de 2015

O governo está sem rumo e os tucanos também


Imagem: George Gianni / PSDB
Por Paulo Eneas

O cenário político na segunda semana de março está marcado por declarações e por desmentidos confusos das principais lideranças tucanas a respeito da posição do PSDB em relação ao impeachment da presidente Dilma. Fernando Henrique Cardoso teria dito que “não adianta tirar presidente por que a culpa é do sistema” e o senador Aloysio Nunes teria afirmado ser contra o impeachment e que preferia ver Dilma “sangrar” até o fim do mandato. José Serra por sua vez, quem diria, afirmou de maneira oblíqua que é a “própria Dilma quem dá as condições para o impeachment”. E para completar, Aécio Neves continua expressando sua indignação de sempre, sem que ela se traduza em ação política eficaz.

Esse vai e vem de tucanos de alta plumagem é apenas o déjà vu de um enredo escrito e encenado há dez anos, quando do estouro do escândalo do Mensalão, ainda no primeiro mandato de Lula. A vacilação tucana naquele momento custou caro ao país, salvou a pele do Aiatolá de Sindicato, e permitiu ao PT fazer o aparelhamento do estado e o solapamento gradual das instituições, que atingiu seu ponto máximo no governo Dilma. Se o PT governa o Brasil há doze anos, isso se deve em grande parte às ambiguidades do PSDB.

Se o PSDB resolver repetir hoje o mesmo erro de dez anos atrás, ele estará não só traindo seus cerca de cinquenta milhões de eleitores, como novamente prestando um desserviço à democracia brasileira. Achar que Dilma pode continuar no governo até 2018, ainda que sangrando politicamente, é não perceber a real dimensão da crise, muito maior que o Mensalão, e não entender não existe saída para a crise econômica e política do país com Dilma na presidência. Isso porque o nome da crise é Dilma, em vista de sua estupefaciente incapacidade e incompetência pessoal para fazer política e para governar. 
O Brasil e suas instituições democráticas e sua economia não resistem mais alguns meses, ou mesmo semanas, com Dilma na presidência. Dilma tem que sair da presidência logo!

Mudança no protagonismo

A ambiguidade dos tucanos nesse momento só não representa um risco maior par o país porque, diferentemente de há dez anos, a sociedade civil está mobilizada e articulada politicamente, à margem de partidos e organizações, contra o PT e contra Dilma. O panelaço durante o último pronunciamento presidencial foi uma mostra pequena, mas barulhenta, daquilo que pulsa e vibra no seio da sociedade, que vive hoje o maior movimento social de sua história: um movimento e uma articulação horizontalizada de pessoas comuns, sem vínculos ou subordinações a chefes partidários ou de sindicatos, e que está ajudando a dar nova feição ao cenário político nacional. Muitos cientistas políticos, analistas e os próprios atores políticos ainda não conseguiram perceber a dimensão real do que se passa na sociedade civil.

O maior parte do prejuízo da ambiguidade tucana poderá ser debitado na conta do próprio partido, não mais na do país. Pois as poucas lideranças políticas genuinamente de direita no cenário político nacional, como o senador Ronaldo Caiado, já fizeram a leitura precisa do sentimento presente na sociedade civil e tomaram a posição correta de não adotar a esdrúxula tese da sangria proposta pelos tucanos. Essas lideranças, especialmente o senador democrata, perceberam que cabe à verdadeira oposição institucional, representada pela direita e por setores do PMDB sob o comando de Eduardo Cunha (sim!) viabilizar o caminho dentro das normas constitucionais que leve à saída de Dilma da presidência o quanto antes.

Existem boas razões para se acreditar que isso venha a correr. No momento crítico do processo, como na instauração formal do processo de impeachment no Congresso, os tucanos possivelmente serão empurrados para a oposição de fato, ainda que contra suas convicções ideológicas, por conta da temperatura do ambiente político, a menos que escolham a opção suicida de ficarem ao lado de Dilma em nome de um suposto “interesse do país”, como sugeriu um jornalista recentemente.

O importante é que a vacilação tucana dessa vez não custará caro ao país como foi há dez anos, pois desta vez eles, os tucanos, não têm o protagonismo da oposição política. Esse protagonismo hoje está na sociedade civil, e tem uma coloração acentuadamente de direita. Os tucanos serão no máximo os coadjuvantes de uma social democracia envergonhada. Os desdobramentos da crise política nacional poderão, possivelmente, marcar uma mudança relevante no padrão da vida politica brasileira nas últimas três décadas: o surgimento de uma força política institucional de direita articulada e respaldada nos setores mais politizados e esclarecidos da sociedade civil em todos os seus segmentos sociais. Em contrapartida, poderá marcar também o enfraquecimento ou no mínimo a não mais preponderância da social democracia representada pelos tucanos e, o mais relevante, a derrota completa da esquerda representada pelo PT. Soma-se a isso possibilidade real do partido ser colocado na ilegalidade dependendo dos desdobramentos das investigações dos crimes de corrupção em nível de estado ocorridos nos últimos doze anos, dos quais o chamado petrolão é apenas um deles.

Final de um ciclo

O fim do governo Dilma por impeachment ou por renúncia poderá marcar o fim do ciclo de hegemonia da esquerda na vida nacional, com a consequente derrota do projeto de esquerda bolivarianista no país e seu enfraquecimento no resto do continente. Poderá também marcar a redução da social democracia ao seu verdadeiro tamanho, com a ascensão da direita como a força politica crescente e com chances reais de chegar ao poder na próxima disputa presidencial. Isso porque o fato de a vida política nacional ter sido marcada por uma agenda de esquerda desde a redemocratização é um anacronismo sociológico, pois a sociedade brasileira é majoritariamente conservadora e de direita em todos os seus segmentos sociais. E essa natureza conservadora e de direita de nossa sociedade se revela agora, como poucas vezes, se é que alguma, ocorreu na história nacional.

É lugar comum dizer que a história, e por extensão a política, não é ciência exata, sendo portanto susceptível ao imponderável e ao imprevisto, tornando nulas todas as previsões. Mas isso não impede que, diante de fatos e condições objetivas dadas, se possa desenhar possíveis cenários futuros. E diante dos fatos dados nesse momento, temos boas razões para acreditar, ainda que com uma boa dose de wishful thinking, que tal cenário aqui descrito se realize.
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