sexta-feira, 6 de março de 2015

Entram em vigor novas regras de racionamento de alimentos na Venezuela


Imagem: Jorge Silva / Reuters
Por Luciano Ayan

Você talvez pode perguntar: "E como vai o 'paraíso socialista' venezuelano?". Vai indo muito bem, obrigado. Isso se você for Nicolas Maduro ou pertencer à sua curriola. Pois para o resto da população é só sofrimento. Quem mandou confiar em socialistas?

CARACAS — Os venezuelanos encontraram novas limitações no dia em que o governo de Nicolás Maduro fazia uma marcha em memória dos 26 anos da revolta popular do “Caracazo”. Sem aviso massivo, passou a vigorar o confuso sistema de rodízio da terminação da carteira de identidade para compras no mercado Bicentenário, além do divulgado aumento de 20% da passagem de ônibus na capital.
Em 27 de fevereiro de 1989, revoltada com as medidas econômicas impostas pelo presidente Carlos Andrés Pérez, a população saiu às ruas deixando um rastro de destruição e saques. O Exército, para controlar a turba, disparava. Números não oficiais apontam mais de duas mil pessoas foram mortas indiscriminadamente. Hoje, pouco mais de 500 vítimas da revolta foram indenizadas pelo Estado. Maduro manifestou a necessidade de cortes nos gastos do Estado para manter programas sociais diante da queda dos preços do petróleo. Porém, no último sábado, em cada ponto da marcha “anti-imperialista”, os palanques, carros de som e lanches para os participantes deixavam transparecer os excessos da convocação.
— Caso não consigam organizar esta situação de caos que vivemos, vai acontecer outro Caracazo — afirma o aposentado José Marquez Turíbio, enquanto tentava entrar no estatal Bicentenário.
Em fevereiro, o ministério da Defesa publicou a resolução 8.610, que autoriza as forças de segurança disparar em manifestações. Críticos ao regime afirmam que o adolescente Kluivert Roa, morto semana passada em Táchira, foi a primeira vítima da medida. Maduro afirma que não está autorizado o uso da força contra manifestantes.
Nas filiais do Bicentenário, avisos informam como funciona o rodízio. No primeiro sábado de cada mês está autorizado acesso de cidadãos com carteiras finalizadas em 0, 1 e 2. Aos domingos, os de 3 e 4, e assim sucessivamente. Este sistema permite as compras a cada 15 dias. Além disso, o consumidor se depara com o sistema biométrico, com a cota e a disponibilidade dos produtos.
— Como fazer um frango render por tanto tempo? Tenho que guardar dinheiro para poder comprar a cada 15 dias. Está complicado — afirma a vendedora de café María Rodríguez.
No país, o salário é pago nas quinzenas e o rodízio de vendas deve gerar distorções no orçamento familiar. A população precisa equilibrar as contas em um país onde a inflação é um segredo guardado a sete chaves, mas sentido no bolso. Foi nos últimos dias de dezembro que o Banco Central da Venezuela divulgou que a inflação foi de 64,8% ao ano.
— O governo vai continuar colocando entraves para a compra porque não há produtos suficientes — explica o economista Angel Alayon.
O Bicentenário da Plaza Venezuela é considerado o modelo do comércio estatal. Ali perto ficam a estação de metrô de mesmo nome da qual saem duas conexões para áreas populares da capital, a principal via expressa da cidade e o ponto de diversas linhas de ônibus. As filas que circundam o mercado são extensas. Sábado começou assim, mas após serem informados do entrave da carteira de identidade, muitos foram embora. Outros, indignados, preferiram aguardar.
— A fome não teme a repressão. Vamos fechar a rua para protestar. Não tenho medo — gritava a faxineira Milagro Filot.
Na entrada do estabelecimento, agentes das forças de segurança organizavam as filas para controlar eventuais agitações, enquanto o general identificado como Bello V., da Força Armada Nacional Bolivariana, tentava aclamar os consumidores.
— Todas as mudanças são traumáticas. A nova norma foi divulgada no canal (estatal) Venezolana de Televisión. Vocês não veem o canal? — perguntava.
A poucos metros dali, em Sábana Grande, partidários do governo se aglomeravam para a marcha resguardados por outros militares. Tudo para manter a ordem.
É por essas e outras que não defendo intervenção militar. Se eles optaram por chegar ao estágio em que chegaram, deverão permanecer para nós, de fora, de sociedades mais civilizadas, como exemplos do que acontece com povos que optam por chegar ao socialismo pelo voto. 

Cada notícia da Venezuela é uma lição para todos nós do resultado da inação política diante de bolivarianos. Os venezuelanos ainda vão sofrer muito mais. O inferno para eles está apenas no começo.
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