sexta-feira, 6 de março de 2015

A lista de Janot e o peru de Natal


Imagem: Givaldo Barbosa / Agência O Globo
Por Arthur Dutra

A notícia do dia não é outra: a lista de Janot. E não poderia ser diferente. Dizem por aí que "vazaram" alguns nomes, sendo omitido o autor dos "vazamentos". Huum... Sei não. Acho que não se deve prostituir assim o vernáculo. De toda forma, algo dessa tal lista chegou ao nosso conhecimento, o que foi interpretado por alguns como o primeiro aroma da pizza tamanho Brasil que estaria para ser servida. Talvez até seja, mas vamos considerar o seguinte. Em primeiro lugar, eu mesmo nunca esperei que os nomes de Dilma e Lula estivessem dentre os primeiro indiciados. Ora, estrategicamente é sabido que nunca se deve usar o argumento mais forte no começo de uma discussão, assim como não é aconselhável espicaçar o bicho grande antes de abater os pequenos que o rodeiam. Ademais, sempre pode-se capitalizar algo assim em favor da oposição. Basta trabalhar o discurso.

Segundo: se consideramos bem, o problema aqui talvez nem seja a atuação do Procurador Geral da República, e sim a nossa pressa em resolver rapidamente, como num passe de mágica, toda essa situação calamitosa, para que possamos voltar, felizes e satisfeitos, para nossas vidas normais certos de que cumprimos nosso papel. Seria como se a Bela Adormecia, depois de um século de sono profundo, quisesse colocar ordem num castelo governado por ratos no mesmo dia em que despertou. Não dá. O PT aparelhou geral as instituições enquanto dormíamos em berço esplêndido justamente para ter uma sobrevida depois que acordássemos. Agora estamos pagando o preço da nossa inércia, e isto é importante que fique bem claro, pois cada passo, cada passinho para frente, deve ser milimetricamente calculado para não ser dado em falso, nem retroceder a marcha. O governo está morrendo de inanição, paralisado no lamaçal de um Congresso hostil e de uma crise econômica, e não seremos nós a servir o alimento ao faminto. 

Outro motivo para não cair em desespero é este: a operação Lava-Jato ainda não acabou. Mais. Nos próximos dias vai entrar na fase mais importante, que é o fechamento do cerco contra a empreiteira Odebrecht, a joia da coroa da construção civil nacional, e de onde se espera que saia a bala de prata que atingirá mortalmente a totalidade da cúpula do petismo. Mas se não for isto, será a pavimentação da rodovia que leva ao buraco ainda maior: o BNDES. Deste não sairão nem as lagartixas. 

Vejam que ainda tem muito carro enlameado para ser trazido para debaixo da mangueira do juiz Sérgio Moro, que está com ela ligada e jorrando água forte e corrosiva. O que temos hoje já é mais do que suficiente para superlotar as ruas no dia 15 de março. Mas precisamos de mais, precisamos de fatos novos que alimentem e reforcem a repulsa ao governo, encurralando-o num beco totalmente sem saída, juridicamente falando, claro.

Bem sei que nesses momentos de tensão tudo parece conspirar contra nossa posição, que soluções apressadas são as primeiras a ser consideradas e desejadas, mas é preciso ter sangue frio, sob pena de sermos abatidos pelo desânimo já na véspera, feito peru no Natal, antes mesmo do garçom trazer o prato principal numa bandeja de prata.
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