segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

João Santana é mesmo um monstro? Ou será que o monstro mora nos erros lógicos do outro lado?


Por Luciano Ayan

O discurso já se tornou recursivo depois da entrevista de João Santana no final de janeiro, vista aqui eaqui. Amparados por um maniqueísmo digno do Guiness, muitos direitistas apontaram a vileza de Santana como o fator decisivo para a vitória do PT em outubro de 2014.


Imagine a seguinte situação. Um adversário imoral e completamente despudorado quer usar brechas jurídicas para atacar a empresa de sua família. Enquanto isso você tem a oportunidade de ajudá-los, escolhendo um advogado que considera adequado para evitar o dano e ainda punir o delinquente.

Infelizmente, na primeira contenda seus familiares perdem. Mas haverão outras batalhas jurídicas. Mas aí alguém surge com dicas a respeito da fragilidade de seu advogado, e da incapacidade dele em defendê-los. Ao mesmo tempo, esta pessoa de fora identifica o alto potencial do advogado oponente. Há aqui um cenário onde muitas coisas podem ser corrigidas em casa (até a substituição do advogado, ou exigência para melhoria) assim como assimiladas do outro advogado.

Mas eis que seu cérebro entra em colapso, pois, revoltado, você começa a xingar qualquer um sugerindo uma mudança de curso em sua defesa. No seu julgamento, não há nada a ser copiado nos bons métodos retóricos, na habilidade e no alto nível de percepção da realidade do outro advogado. Motivo: “ele não tem caráter”.

Esta é a situação de muitas pessoas que se revoltaram diante daquelas declarações de João Santana, optando por xingá-lo ao invés de entender como o alto nível de percepção da realidade demonstrado por ele deveria ser urgentemente copiado por nós?

Qual o crime moral de João Santana? Ele foi contratado por um partido que tinha um senso moral das coisas realmente bizarro, mas tinha com objetivo mostrar-se da melhor forma possível, assim como desconstruir a imagem de seus oponentes. Ciente dessa missão, como qualquer bom advogado faria, João Santana fez seu serviço. E com um habilidade elogiável. De novo pergunto: qual o crime moral aí?

Para podermos responder esta pergunta, nada melhor que mapear o padrão comportamental de João Santana nessas eleições.
Identificou seu cliente e seu objetivo
Alinhou-se ao sistema moral de seu cliente
Desenhou as melhores estratégias possíveis para atender (1), sempre de acordo com (2)
Executou as estratégias e planos correlatos
Reagiu aos eventos do mundo sem se esquecer dos passos anteriores


Isso é o que o “demônio” João Santana fez nas eleições. Nada que um advogado top não faria.

Aqueles da direita que reclamam de João Santana pela campanha mentirosa do PT provavelmente se indignam com o passo (2). Porém, o passo (2) também foi executado pela equipe de marketing do PSDB. Ou seja, ambos se alinharam com os sistemas morais de seus clientes. Então, qual a reclamação?

A reclamação vem do fato de que, tendo tanto Santana como o marqueteiro do PSDB executado os passos (1) e (2), a partir do (3) somente o primeiro continuou agindo. Mas os passos (3), (4) e (5), que é o que decidiram o jogo, não tinham nada de imoral. Ou seja, atacaram João Santana por fazer o que os tucanos (e todos os seus aliados, de esquerda, centro e até da direita) deveriam ter feito.

Mas eis que, no momento de aprendermos algo com isso, muitos de nós protestam: “ele não tem caráter”. É eliminada com isso qualquer chance de aprendizado. Estes mantras começam a ser repetidos como uma ode ao nosso conhecimento sempre superior. Se perdemos, “é por falta de caráter do outro”. Em um instante, conseguimos absolvição de nossas falhas, que não precisam ser mais corrigidas.

Habilidades como entendimento das regras do jogo, alto nível de percepção da realidade, mapeamento e disputa de posições, concentração de esforços e pragmatismo se tornam não algo a ser assimilado, mas condenado, pois foram usadas a favor deles, e contra nós. E perdemos. A culpa de nossa derrota, porém, não é nossa, mas da “malignidade dele”.

Não dá mais para negar que há uma parte da direita que não está disposta a discutir suas estratégias políticas, nem assimilar os jogos políticos. Não há mesmo disposição em discutir “coisas malignas”, que “vão contra os nossos princípios”. Para eles, partir de agora, perceber a realidade, como fez João Santana, é um pecado. Disputar uma posição também. Desconstruir um oponente? Também um pecado.

Será coincidência o fato de que essa direita, que odeia ter que admitir que fomos vítimas de erros antes da oposição do que dos acertos da situação, é a mais propensa a declarar “tudo acabou, está tudo dominado”, desestimulando o maior número de pessoas do nosso lado quanto possível?

A narrativa é bem óbvia. Não há nada a aprender. A campanha tucana fez o que deveria ter feito. Se existiu alguma vantagem do PT, é por uma imoralidade que jamais deve ser copiada (embora não exista nada de imoral da guerra política, diga-se). Mas por que o PSDB perdeu então? Urnas fraudadas, meu caro. As instituição estão acabadas, demolidas. Nada mais há a fazer. Estamos todos no caminho certo. Mas nossos adversários impedem que vençamos pois são sujos e nada do que fizeram pode ser copiado.

Bom, eu já fui criticado mais de uma vez por uma suposta imoralidade por trás dos jogos políticos, dentro da guerra política. Já demonstrei aqui que tal argumentação não se sustenta. Se ela se sustentasse, um policial se tornaria imoral apenas por usar uma arma, método usado por criminosos.

Mas se eu já fui criticado moralmente (e contra-argumentei), espero que meus amigos da direita que estão indo pelo caminho de ignorar a responsabilidade da oposição para demonizar o marqueteiro do lado adversário não levem a mal o que vou dizer: muito mais imoral do que qualquer atitude de João Santana é a citação de malfeitos do lado adversário para justificar a inação.

Em outras palavras, imagine-se como um líder de guerra de uma nação devastada por um outro grupo que gosta de decepar os braços das crianças. Pois imagine agora que, diante do primeiro caso de barbárie do outro lado, você utilize isso como argumento para dizer que não precisa copiar as estratégias (não as abominações morais) do adversário, nem mesmo disputar ferrenhamente as posições com ele. Este fenômeno é o que defino como busca da validação de sua inação pela citação de monstruosidades morais do outro lado.

Enfim, João Santana é um monstro moral menor do que aquele assombrando este tipo de argumentação (mesmo que algumas pessoas o façam de boa fé, mas a partir de erros lógicos). Que sirva como reflexão para todos nós, que não precisamos de nenhuma trava mental que nos impeça de adentrar ao mundo da guerra política.
Comentários
0 Comentários
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

UOL Cliques