sábado, 28 de fevereiro de 2015

As conveniências de poder colocar um bode na sala


Imagem: Reprodução Redes Sociais
Por Paulo Eneas

As reações que se seguiram à decisão da Câmara dos Deputados de pagar as passagens aéreas de cônjuges de parlamentares se assemelharam , em alguns aspectos, à reação que houve quando do aumento de vinte centavos na tarifa de ônibus: colocaram o bode na sala. Colocaram o bode no recinto e as pessoas passaram a se incomodar e reclamar e se indignar com justíssima razão. Afinal, o odor do bicho é tão forte e desagradável que fez com que estas mesmas pessoas esquecessem que as paredes da sala estão trincadas, o teto está prestes a desabar e o piso está balofo e pode ceder a qualquer momento. Mas o que incomodou mesmo foi o bode!

O fato é que essa medida representa talvez o primeiro erro de cálculo e de timing político do experiente Eduardo Cunha, que escolheu o momento errado de cumprir sua promessa junto aos parlamentares do chamado baixo clero: aquele grupo de parlamentares que não apenas garantiu sua vitória na disputa pela presidência da casa, como passou a formar sua quinta coluna em seu embate com o governo federal. Essa quinta coluna será decisiva num eventual processo de impeachment. A medida foi tomada na mesma semana em que a Câmara dos Deputados impôs duas derrotas de peso ao governo: 

a) A aprovação de alteração na legislação que define as regras de fusões partidárias. As alterações feitas na legislação matam no nascedouro a “brilhante” ideia dos gurus políticos do Planalto de mandar Gilberto Kassab criar uma legenda fantasma ou laranja, para em seguida rifar o PMDB do condomínio do poder e desta forma assegurar o poder absoluto ao PT e à sua base alugada. 

b) A aprovação pelo plenário de uma moção de repúdio ao governo ditatorial de Nicolas Maduro da Venezuela, devido as prisões ilegais de opositores e a brutal violência das milícias chavistas contra a população. A moção foi aprovada com votos contrários do PT e de seus partidos satélites de esquerda. O plenário aprovou também moção de apoio à intervenção militar da ONU na Líbia para combater os terroristas do Estado Islâmico. 

As resoluções aprovadas pela Câmara na área de política externa são contrárias às orientações ideológicas do PT e das esquerdas e representa, pela primeira vez em doze anos, uma manifestação explícita do parlamento brasileiro contrária a desastrosa e vergonhosa política externa brasileira sob governo petista. Política essa que se orienta unicamente por afinidades ideológicas, é contrária aos interesses nacionais, fere os princípios estabelecidos em nossa Constituição e que fizeram com que o país passasse a ser tratado como anão diplomático na arena geopolítica internacional. 

Estas duas derrotas impostas ao governo pela Câmara dos Deputados seguramente tiveram a mão forte de Eduardo Cunha. O desgaste do governo poderia ser maior se a Câmara não tivesse que ficar se explicando do porquê do bode na sala representado pelas malditas passagens aéreas de cônjuges. Em vez disso, o parlamento deveria estar dando eco à paralisação dos caminhoneiros que colocaram o governo nas cordas ao longo da semana, ou ainda repercutindo declaração do ministro da fazenda reconhecendo que o governo errou no controle das contas publicas no ano passado, ou então o rebaixamento da nota de classificação de risco da Petrobras feita pela agência Moody's. 

Ou seja, uma sucessão de derrotas políticas importantes do governo foi eclipsada pelos vícios patrimonialistas e fisiológicos dos parlamentares e pela facilidade com que o brasileiro comum tem de se indignar com uma árvore podre em meio a uma floresta que está pegando fogo. 

Desta forma, as derrotas e desgastes políticos do governo durante a semana perderam espaço na grande imprensa e nas redes sociais para o bode na sala representado pelas passagens aéreas de cônjuges. Um bode que realmente fede muito e enoja, mas que nem de longe é tão grave quanto as reais condições da sala, cujas paredes continuam com rachaduras, o teto prestes a desabar e o chão sob o risco de ceder. Mas os ocupantes da sala estão mesmo é indignados, e com razão, com o maldito bode!
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