quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Comediante, digo, cientista social Michael Lowy diz: ‘Agora é que a história do socialismo está começando’


Por Luciano Ayan

No blog global Conte algo que não sei (ótimo nome, diga-se) há uma entrevista com um tal Michael Lowy, cientista social brasileiro que vive há 40 anos na França fazendo “teses sobre Marx”.

Alguns momentos são risíveis de tão patéticos:

Nasci no Brasil, fui para a Europa fazer tese sobre Marx e vivo na França há 40 anos. Tenho estudado o judaísmo libertário e o grupo de pensadores que articulou a tradição messiânica com a utopia revolucionária. Sou um ateu religioso. Acredito no marxismo e no homem, mas essa já é uma fé profana.
Aqui ele não contou nada que nós já não soubéssemos.

Desde Eric Voegelin, já sabíamos que marxismo não passa de uma religião política. Em Political Religions, escrito pelo autor em 1938, e The Pursuit of the Millenium, de Norman Cohn (escrito em 1957), a charada já tinha sido desvendada.

A maioria dos marxistas funcionais (como parece ser o caso de Lowy, mas sempre há o risco de estarmos errado com essa gente) caiu em um discurso de fé, no qual apenas os beneficiários não acreditam, mesmo que sejam os que mais se aproveitam dele. Senão os únicos.

Ele está certo em falar que é um ateu religioso. Mas a religião no caso é a religião política.

Walter Benjamim denuncia o capitalismo como religião mas diz que o materialismo precisa da ajuda da teologia para ser redentor. Há na tradição judaica o messianismo, promessa de um mundo do qual a opressão, a fome, a miséria, a guerra desaparecerão. Isso tem potencial subversivo, mas não é monopólio dos judeus. O pessoal teologia da libertação, leitor atento do antigo testamento, se apropriou. Há uma relação forte desse elemento profético com o cristianismo da libertação na América Latina.
Na doutrinação de um marxista beneficiário, basta fazê-lo acreditar que o homem resolverá suas contingências (territorialismo, gregarismo, seus instintos, a auto-preservação, e até mesmo a existência de 2% de psicopatas no mundo) para que, ao receber o poder totalitário (na ditadura do proletariado), realmente crie o paraíso em terra – óbvio que esse poder fica nas mãos de poucos. É uma doutrina de salvação, que basicamente transmuta as religiões messiânicas para ações em terra.

Há uma boa confissão quando ele diz que o pessoal da teologia da libertação “se apropriou” de escrituras. Na verdade, fizeram desconstrução. Apenas para poderem continuar usando mais símbolos marxistas fingindo praticar religião tradicional.

O que fracassou nos países do leste foi uma caricatura burocrática do socialismo: o marxismo foi usado só para legitimar um estado que não tinha muito a ver com a essência socialista, em que a sociedade controla democraticamente os meios de produção e consumo. Talvez no começo, havia uma tentativa, mas virou uma ditadura totalitária. Só que não acabou. Na verdade, é agora que a história do socialismo está começando.
Ou temos aqui auto-engano ao nível da loucura. Ou cinismo recorde.

O detalhe é que para as religiões messiânicas, há um demônio no inferno. Para as religiões políticas, o demônio está nos inimigos políticos. Como John Gray dizia, a religião política não acreditava no céu e no inferno, mas não dispensava uma demonologia.

Ao copiar o messianismo religioso para usá-lo em benefício político, as religiões políticas não podiam deixar de se tornar a maior usina de produção de ódio da história da humanidade.

Todo o discurso de Lowy é a negação do que o socialismo de fato é, na eterna treta de dizer que “existe uma versão ideal melhor do que a versão real”. Mas isso pode ser dito de tudo no mundo. Se alguém lançar uma marca de automóvel que fracassar no mercado, por questões de desempenho, bastaria a empresa dizer: “mas na versão ideal o desempenho dos carros era o melhor de todos”.

Eu já perco respeito imediato por qualquer um fazendo uso de truques deste tipo.

O pior é que até na idealização ele mente, pois diz que “o socialismo controla democraticamente os meios de produção e consumo”, mas o próprio Marx falava em ditadura do proletariado. O que não era bem uma democracia. Outro problema lógico, mesmo se aceitássemos sua distinção, é que a questão não é se “socialismo contra democraticamente ou não”, mas se é possível que um sistema com concentração máxima de poder (acima do poder econômico privado) possa ser contido em sua sanha totalitária. Tendo o empirismo negado esta possibilidade, de nada adianta o Sr. Lowy falar em “socialismo promete (x)”. Mas eis os fatos: o empirismo demonstrou que qualquer sistema com concentração máxima de poder não pode ser contido em sua sanha totalitária. Se o socialismo só faz prover concentração máxima de poder, não pode jamais ser acusado de “distorcido”.

Ele diz que “talvez no começo, havia uma tentativa, mas virou uma ditadura totalitária”. Mas o que fez a “tentativa” virar uma “ditadura totalitária”? Sim, fui apenas retórico. Todos nos já sabemos que não havia nenhuma tentativa democrática. Ao contrário do que o Sr. Lowy afirma, tentando enganar seus leitores pascácios.

A parte mais engraçada está no final: “Só que não acabou. Na verdade, é agora que a história do socialismo está começando.”

Não, Sr. Lowy, o que está começando é o despertar de pessoas descobrindo o quanto o marxismo é desonesto, cínico e sanguinário. Esta é a história que está começando. A história na qual começa a ser criada uma verdadeira conscientização do que é realmente o socialismo. Ele não é uma história de “coitadinhos enganados”. É uma história de bestas psicopáticas em torno do poder e da destruição, cujo veículo perfeito é o socialismo.

Talvez Lowy não esteja entre estes marxistas mais espertos (e mais perigosos). Ele pode muito bem ser um iludido merecedor de pena. Mas ele é perigoso enquanto propaga sua fé cega.
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